sexta-feira, 9 de setembro de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
fábula de um amor juvenil
ela estava sentada na janela do ônibus.
era o mesmo ônibus que ela pegava todos os dias, voltando da escola. como sempre, ela entrou, cumprimentou o motorista e o trocador, e foi sentar-se no seu lugar junto à janela, pra ficar olhando o mar. ela gostava de pegar esse ônibus, que dava uma volta maior, só pra poder sentar na janela e ver o mar passar. isso a deixava melancólica, e ela gostava de sentir-se melancólica. não sabia muito bem porquê, imaginava que devia ser "coisa de adolescente", como dizia sua vó, mas ela gostava. acho que o fato de estar sentindo alguma coisa a fazia sentir viva, humana. na sua melancolia, ela sabia que era uma pessoa, como as outras.
o sol do meio-dia batia na janela quando o ônibus parou num sinal. com o veículo parado, ela tirava os olhos da praia. o mar só tinha graça em movimento, senão ela tinha uma sensação de pequenez que a angustiava. olhou pros carros parados ao seu redor. tantos carros, e dentro de cada um deles pelo menos uma pessoa. cada pessoa com seus pensamentos, quantos pensamentos isso dava? muitos e muitos e muitos. ela ficava surpresa do espaço no mundo não acabar, com tanta gente pensando ao mesmo tempo.
e aí ela o viu. ele era um daqueles vendedores de sinal, que prendem os saquinhos de bala no espelho retrovisor. tinha os cabelos pintados de louro, mas sua pele preta denunciava suas raízes. passeava entre os carros como um bailarino, falando com as pessoas, desculpando-se pelo incômodo, tentando conseguir um real que fosse daquelas pessoas, naqueles carros, com seus pensamentos.
e aí ele a viu. viu que ela o observava, e falou com ela: "e aí, nem?" e sorriu.
sorriu. ela ficou paralisada naquele sorriso. ficou ali, saboreando aquele momento em que ele a notou e sorriu. ela provocou aquele sorriso, e de repente, ela estava feliz. era ele! aquele era o príncipe que ela tanto esperava. era com ele que ela ia dividir a vida e as contas, ele seria o pai dos seus filhos, e ela cozinharia pra ele. eles teriam que enfrentar o preconceito da sua família, que batalhava tanto pra que ela pudesse estudar e ser alguém na vida, e jamais aceitaria que ela se casasse com um vendedor de sinal e virasse dona-de-casa. já podia ouvir sua mãe dizer: "minha princesinha, tão linda! faz alguma coisa, antenor!"
não importava. ela o amava, sabia disso desde o momento em que viu aquele sorriso. sabia que ele a amava de volta, viu isso no brilho de seus olhos negros, quando olharam para ela. enfrentariam tudo e todos, e seriam felizes contra todas as previsões.
ele estava voltando, para recolher os saquinhos de bala dos retrovisores. novamente, olhou para ela. novamente, o tempo ficou suspenso nessa troca de olhares, esse momento tão eterno e tão fugaz que marcava o verdadeiro início da sua vida. ela quis ficar presa pra sempre nesse olhar, e sabia que ele queria também. ele abriu a boca, pronto para falar alguma coisa. "é agora!" ela esperou a declaração de amor, concentrando todos os seus pensamentos e seu olhar naqueles lábios fartos, belos. e então ele falou:
-vai, nem?
e apontou o saquinho de balas.
nesse instante, o sinal abriu, e o ônibus arrancou.
ela não queria mais olhar o mar.
era o mesmo ônibus que ela pegava todos os dias, voltando da escola. como sempre, ela entrou, cumprimentou o motorista e o trocador, e foi sentar-se no seu lugar junto à janela, pra ficar olhando o mar. ela gostava de pegar esse ônibus, que dava uma volta maior, só pra poder sentar na janela e ver o mar passar. isso a deixava melancólica, e ela gostava de sentir-se melancólica. não sabia muito bem porquê, imaginava que devia ser "coisa de adolescente", como dizia sua vó, mas ela gostava. acho que o fato de estar sentindo alguma coisa a fazia sentir viva, humana. na sua melancolia, ela sabia que era uma pessoa, como as outras.
o sol do meio-dia batia na janela quando o ônibus parou num sinal. com o veículo parado, ela tirava os olhos da praia. o mar só tinha graça em movimento, senão ela tinha uma sensação de pequenez que a angustiava. olhou pros carros parados ao seu redor. tantos carros, e dentro de cada um deles pelo menos uma pessoa. cada pessoa com seus pensamentos, quantos pensamentos isso dava? muitos e muitos e muitos. ela ficava surpresa do espaço no mundo não acabar, com tanta gente pensando ao mesmo tempo.
e aí ela o viu. ele era um daqueles vendedores de sinal, que prendem os saquinhos de bala no espelho retrovisor. tinha os cabelos pintados de louro, mas sua pele preta denunciava suas raízes. passeava entre os carros como um bailarino, falando com as pessoas, desculpando-se pelo incômodo, tentando conseguir um real que fosse daquelas pessoas, naqueles carros, com seus pensamentos.
e aí ele a viu. viu que ela o observava, e falou com ela: "e aí, nem?" e sorriu.
sorriu. ela ficou paralisada naquele sorriso. ficou ali, saboreando aquele momento em que ele a notou e sorriu. ela provocou aquele sorriso, e de repente, ela estava feliz. era ele! aquele era o príncipe que ela tanto esperava. era com ele que ela ia dividir a vida e as contas, ele seria o pai dos seus filhos, e ela cozinharia pra ele. eles teriam que enfrentar o preconceito da sua família, que batalhava tanto pra que ela pudesse estudar e ser alguém na vida, e jamais aceitaria que ela se casasse com um vendedor de sinal e virasse dona-de-casa. já podia ouvir sua mãe dizer: "minha princesinha, tão linda! faz alguma coisa, antenor!"
não importava. ela o amava, sabia disso desde o momento em que viu aquele sorriso. sabia que ele a amava de volta, viu isso no brilho de seus olhos negros, quando olharam para ela. enfrentariam tudo e todos, e seriam felizes contra todas as previsões.
ele estava voltando, para recolher os saquinhos de bala dos retrovisores. novamente, olhou para ela. novamente, o tempo ficou suspenso nessa troca de olhares, esse momento tão eterno e tão fugaz que marcava o verdadeiro início da sua vida. ela quis ficar presa pra sempre nesse olhar, e sabia que ele queria também. ele abriu a boca, pronto para falar alguma coisa. "é agora!" ela esperou a declaração de amor, concentrando todos os seus pensamentos e seu olhar naqueles lábios fartos, belos. e então ele falou:
-vai, nem?
e apontou o saquinho de balas.
nesse instante, o sinal abriu, e o ônibus arrancou.
ela não queria mais olhar o mar.
sábado, 8 de janeiro de 2011
casa de bonecas
barbies sempre foram seu brinquedo predileto.
ela adorava aquela sensação de onipotência que ela só alcançava num mundo todo construído por ela, onde todos só faziam o que ela queria.
ela adorava construir esses mundos, para depois destruí-los na hora de dormir e construir um novo no dia seguinte.
construir e destruir. e o mais importante: só ela tinha esse poder quando se tratava das suas bonecas.
ali, naquele pequeno universo onde todos os móveis são cor-de-rosa, ninguém podia fazer nada contra a vontade daquela menina. alguém só ia embora se ela deixasse.
diferente do "mundo de verdade" (isso era o que a mãe dela dizia. pra ela, "de verdade" era aquilo que ela podia controlar.), onde as pessoas podiam simplesmente partir, sem dar nenhuma explicação e sem perguntar a opinião dela.
ali, aquela mocinha tão novinha, podia ter certeza que não ia errar. aquele era o mundo dela, com as regras dela. se ela errasse, suas barbies iam continuar a amá-la, e nem iam notar o seu erro. de novo, diferente do mundo real, onde ela tinha certeza que o que tinha acontecido era sua culpa. ela só queria entender o que ela fez de errado.
e o mais importante era poder guardar aquelas pessoas que ela criava e descriava numa caixa, de onde ela sabia que elas não iam sair sem ela saber. nenhuma surpresa, nada inesperado. tudo sob controle, conforme o que ela havia planejado.
ela era feliz nesse mundo.
um dia, a mãe dela resolveu que ela já estava crescida e deu todas as suas barbies pros pobres.
a partir daí, a menina nunca mais teve controle de nada. e aprendeu que era assim que tinha que ser.
ela adorava aquela sensação de onipotência que ela só alcançava num mundo todo construído por ela, onde todos só faziam o que ela queria.
ela adorava construir esses mundos, para depois destruí-los na hora de dormir e construir um novo no dia seguinte.
construir e destruir. e o mais importante: só ela tinha esse poder quando se tratava das suas bonecas.
ali, naquele pequeno universo onde todos os móveis são cor-de-rosa, ninguém podia fazer nada contra a vontade daquela menina. alguém só ia embora se ela deixasse.
diferente do "mundo de verdade" (isso era o que a mãe dela dizia. pra ela, "de verdade" era aquilo que ela podia controlar.), onde as pessoas podiam simplesmente partir, sem dar nenhuma explicação e sem perguntar a opinião dela.
ali, aquela mocinha tão novinha, podia ter certeza que não ia errar. aquele era o mundo dela, com as regras dela. se ela errasse, suas barbies iam continuar a amá-la, e nem iam notar o seu erro. de novo, diferente do mundo real, onde ela tinha certeza que o que tinha acontecido era sua culpa. ela só queria entender o que ela fez de errado.
e o mais importante era poder guardar aquelas pessoas que ela criava e descriava numa caixa, de onde ela sabia que elas não iam sair sem ela saber. nenhuma surpresa, nada inesperado. tudo sob controle, conforme o que ela havia planejado.
ela era feliz nesse mundo.
um dia, a mãe dela resolveu que ela já estava crescida e deu todas as suas barbies pros pobres.
a partir daí, a menina nunca mais teve controle de nada. e aprendeu que era assim que tinha que ser.
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