sexta-feira, 18 de maio de 2012

dor de crescimento

quando eu era criança, toda vez que eu sentia aquela dorzinha atrás do joelho, me diziam que era dor de crescimento.
- não se preocupa, quando vc parar de crescer isso passa.


esqueceram de me contar que a gente nunca para de crescer. a dorzinha só muda de lugar.

terça-feira, 15 de março de 2011

fábula de um amor juvenil

ela estava sentada na janela do ônibus.

era o mesmo ônibus que ela pegava todos os dias, voltando da escola. como sempre, ela entrou, cumprimentou o motorista e o trocador, e foi sentar-se no seu lugar junto à janela, pra ficar olhando o mar. ela gostava de pegar esse ônibus, que dava uma volta maior, só pra poder sentar na janela e ver o mar passar. isso a deixava melancólica, e ela gostava de sentir-se melancólica. não sabia muito bem porquê, imaginava que devia ser "coisa de adolescente", como dizia sua vó, mas ela gostava. acho que o fato de estar sentindo alguma coisa a fazia sentir viva, humana. na sua melancolia, ela sabia que era uma pessoa, como as outras.

o sol do meio-dia batia na janela quando o ônibus parou num sinal. com o veículo parado, ela tirava os olhos da praia. o mar só tinha graça em movimento, senão ela tinha uma sensação de pequenez que a angustiava. olhou pros carros parados ao seu redor. tantos carros, e dentro de cada um deles pelo menos uma pessoa. cada pessoa com seus pensamentos, quantos pensamentos isso dava? muitos e muitos e muitos. ela ficava surpresa do espaço no mundo não acabar, com tanta gente pensando ao mesmo tempo.

e aí ela o viu. ele era um daqueles vendedores de sinal, que prendem os saquinhos de bala no espelho retrovisor. tinha os cabelos pintados de louro, mas sua pele preta denunciava suas raízes. passeava entre os carros como um bailarino, falando com as pessoas, desculpando-se pelo incômodo, tentando conseguir um real que fosse daquelas pessoas, naqueles carros, com seus pensamentos.

e aí ele a viu. viu que ela o observava, e falou com ela: "e aí, nem?" e sorriu.

sorriu. ela ficou paralisada naquele sorriso. ficou ali, saboreando aquele momento em que ele a notou e sorriu. ela provocou aquele sorriso, e de repente, ela estava feliz. era ele! aquele era o príncipe que ela tanto esperava. era com ele que ela ia dividir a vida e as contas, ele seria o pai dos seus filhos, e ela cozinharia pra ele. eles teriam que enfrentar o preconceito da sua família, que batalhava tanto pra que ela pudesse estudar e ser alguém na vida, e jamais aceitaria que ela se casasse com um vendedor de sinal e virasse dona-de-casa. já podia ouvir sua mãe dizer: "minha princesinha, tão linda! faz alguma coisa, antenor!"
não importava. ela o amava, sabia disso desde o momento em que viu aquele sorriso. sabia que ele a amava de volta, viu isso no brilho de seus olhos negros, quando olharam para ela. enfrentariam tudo e todos, e seriam felizes contra todas as previsões.

ele estava voltando, para recolher os saquinhos de bala dos retrovisores. novamente, olhou para ela. novamente, o tempo ficou suspenso nessa troca de olhares, esse momento tão eterno e tão fugaz que marcava o verdadeiro início da sua vida. ela quis ficar presa pra sempre nesse olhar, e sabia que ele queria também. ele abriu a boca, pronto para falar alguma coisa. "é agora!" ela esperou a declaração de amor, concentrando todos os seus pensamentos e seu olhar naqueles lábios fartos, belos. e então ele falou:

-vai, nem?

e apontou o saquinho de balas.

nesse instante, o sinal abriu, e o ônibus arrancou.

ela não queria mais olhar o mar.

sábado, 8 de janeiro de 2011

casa de bonecas

barbies sempre foram seu brinquedo predileto.

ela adorava aquela sensação de onipotência que ela só alcançava num mundo todo construído por ela, onde todos só faziam o que ela queria.
ela adorava construir esses mundos, para depois destruí-los na hora de dormir e construir um novo no dia seguinte.
construir e destruir. e o mais importante: só ela tinha esse poder quando se tratava das suas bonecas.

ali, naquele pequeno universo onde todos os móveis são cor-de-rosa, ninguém podia fazer nada contra a vontade daquela menina. alguém só ia embora se ela deixasse.
diferente do "mundo de verdade" (isso era o que a mãe dela dizia. pra ela, "de verdade" era aquilo que ela podia controlar.), onde as pessoas podiam simplesmente partir, sem dar nenhuma explicação e sem perguntar a opinião dela.
ali, aquela mocinha tão novinha, podia ter certeza que não ia errar. aquele era o mundo dela, com as regras dela. se ela errasse, suas barbies iam continuar a amá-la, e nem iam notar o seu erro. de novo, diferente do mundo real, onde ela tinha certeza que o que tinha acontecido era sua culpa. ela só queria entender o que ela fez de errado.

e o mais importante era poder guardar aquelas pessoas que ela criava e descriava numa caixa, de onde ela sabia que elas não iam sair sem ela saber. nenhuma surpresa, nada inesperado. tudo sob controle, conforme o que ela havia planejado.

ela era feliz nesse mundo.

um dia, a mãe dela resolveu que ela já estava crescida e deu todas as suas barbies pros pobres.
a partir daí, a menina nunca mais teve controle de nada. e aprendeu que era assim que tinha que ser.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

sala de espera

dia desses eu estava na sala de espera do médico.
cometi o erro de não levar nada pra ler ou ouvir enquanto eu esperava.
nada de bom na tv da sala de espera (novidade!), me restou escutar as conversas alheias.

ouço uma senhora contando que decidiu fazer uma cirurgia de redução de estômago pra conseguir emagrecer os 20kg que lhe sobram. as outras senhoras entram em polvorosa:
"mas como?? mas vc está com problemas de saúde?? mas essa cirurgia é muito arriscada!! pq eu mesma conheço uma menina, uma menina muito boazinha, saudável, sabe? fez essa cirurgia e morreu, por causa de um erro do médico!"
e eu pensando comigo mesma como é que alguém que precisa de uma cirurgia dessas pode ser saudável.
uma das senhoras tira da bolsa um pedacinho de papel e uma caneta, e começa a escrever, um pouco ansiosa e em silêncio, enquanto as outras continuam listando os horrores que podem acontecer em consequência da cirurgia. de repente, a senhora que estava escrevendo pega o pedaço de papel e entrega à senhora que vai operar, como quem entrega o elixir da vida:
"toma! tá aqui. antes de decidir fazer a cirurgia, vc experimenta esses remédios indianos. são maravilhosos! tudo natural, não tem contra-indicação. depois vc me diz se não fez efeito."
a senhora, meio confusa, pega o pedaço de papel e guarda na bolsa.

eu começo a ficar incomodada com aquela conversa.

a conversa se encaminha para a cura espiritual, e a senhora do pedacinho de papel começa a contar que a vida dela melhorou muito quando ela descobriu a espiritualidade. outra, que é uma psicóloga, concorda. a senhora que vai fazer a cirurgia diz que tem uma filha psicóloga, e que ela gosta muito de estudar junto com a filha, e que até dizem, as pessoas próximas e da família, que ela é uma psicóloga. claro que o diploma dela diz que ela é uma economista, mas, no espírito, ela é uma psicóloga.

é quando a senhora do pedacinho de papel diz:
"pois eu me encontrei na física quântica! quando eu descobri a física quântica, minha vida mudou!"

penso comigo mesma que qualquer um que se encontrou na física quântica só pode estar perdido.

de tão desesperada que estou com essa conversa, eu decido ler a Caras.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

ano atrás

as coisas vêm de onde a gente menos espera.

um ano atrás, contra todas as minhas expectativas, eu confiei cegamente em duas pessoas que deveriam confiar em mim. eu abri meu coração para quem abriu pra mim primeiro.
duas pessoas pelas quais eu sou responsável, ainda que elas não admitam. dois que eu sei que escutam o que eu digo e seguem os meus conselhos, mesmo que eles neguem até a morte. e por isso mesmo eu estou numa posição muito perigosa.

é muito bom quando as pessoas simplesmente não escutam o que vc diz, pq assim vc pode dizer o que quiser, sem maiores consequências. mas quando vc tem ouvintes atentos e prontos para seguir os seus conselhos, vc tem que pensar antes de falar. pior ainda quando estes ouvintes ainda são crianças. sim, vcs são crianças. por pouco tempo, talvez, mas ainda são.

acho que eu fiz a coisa certa. contei coisas que não teria contado pra qualquer um, e, pra ser sincera, isso me ajudou com os meus problemas também. hoje em dia está mais fácil. não fácil, mas mais fácil.

então eu acho que sou eu que devo agradecer a vcs. por me ajudar com um problema que é sério e que vcs, mais novos, menos experientes e bem mais bobinhos, lidaram muito melhor do que eu. obrigada tb por merecerem a minha confiança e saberem manter entre nós o que aconteceu naquele dia.
obrigada por me fazerem aprender muita coisa quando quem tinha que estar ensinando era eu. por me lembrar que a gente sempre pode extrair sabedoria das pessoas, não importa a idade ou qualquer outra coisa.
e simplesmente por terem me escutado. isso é a coisa mais importante do mundo, e se eu puder ensinar alguma coisa pra vcs é isso: aprendam a ouvir. é das outras pessoas que vcs vão tirar tudo o que realmente importa, independente do caminho que vcs sigam.

eu amo vcs. de verdade, e sem precisar de provas.
pq eu sei que vcs sabem.

ideia fixa

eu acho que o meu shuffle tá quebrado.