terça-feira, 16 de novembro de 2010

sala de espera

dia desses eu estava na sala de espera do médico.
cometi o erro de não levar nada pra ler ou ouvir enquanto eu esperava.
nada de bom na tv da sala de espera (novidade!), me restou escutar as conversas alheias.

ouço uma senhora contando que decidiu fazer uma cirurgia de redução de estômago pra conseguir emagrecer os 20kg que lhe sobram. as outras senhoras entram em polvorosa:
"mas como?? mas vc está com problemas de saúde?? mas essa cirurgia é muito arriscada!! pq eu mesma conheço uma menina, uma menina muito boazinha, saudável, sabe? fez essa cirurgia e morreu, por causa de um erro do médico!"
e eu pensando comigo mesma como é que alguém que precisa de uma cirurgia dessas pode ser saudável.
uma das senhoras tira da bolsa um pedacinho de papel e uma caneta, e começa a escrever, um pouco ansiosa e em silêncio, enquanto as outras continuam listando os horrores que podem acontecer em consequência da cirurgia. de repente, a senhora que estava escrevendo pega o pedaço de papel e entrega à senhora que vai operar, como quem entrega o elixir da vida:
"toma! tá aqui. antes de decidir fazer a cirurgia, vc experimenta esses remédios indianos. são maravilhosos! tudo natural, não tem contra-indicação. depois vc me diz se não fez efeito."
a senhora, meio confusa, pega o pedaço de papel e guarda na bolsa.

eu começo a ficar incomodada com aquela conversa.

a conversa se encaminha para a cura espiritual, e a senhora do pedacinho de papel começa a contar que a vida dela melhorou muito quando ela descobriu a espiritualidade. outra, que é uma psicóloga, concorda. a senhora que vai fazer a cirurgia diz que tem uma filha psicóloga, e que ela gosta muito de estudar junto com a filha, e que até dizem, as pessoas próximas e da família, que ela é uma psicóloga. claro que o diploma dela diz que ela é uma economista, mas, no espírito, ela é uma psicóloga.

é quando a senhora do pedacinho de papel diz:
"pois eu me encontrei na física quântica! quando eu descobri a física quântica, minha vida mudou!"

penso comigo mesma que qualquer um que se encontrou na física quântica só pode estar perdido.

de tão desesperada que estou com essa conversa, eu decido ler a Caras.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

ano atrás

as coisas vêm de onde a gente menos espera.

um ano atrás, contra todas as minhas expectativas, eu confiei cegamente em duas pessoas que deveriam confiar em mim. eu abri meu coração para quem abriu pra mim primeiro.
duas pessoas pelas quais eu sou responsável, ainda que elas não admitam. dois que eu sei que escutam o que eu digo e seguem os meus conselhos, mesmo que eles neguem até a morte. e por isso mesmo eu estou numa posição muito perigosa.

é muito bom quando as pessoas simplesmente não escutam o que vc diz, pq assim vc pode dizer o que quiser, sem maiores consequências. mas quando vc tem ouvintes atentos e prontos para seguir os seus conselhos, vc tem que pensar antes de falar. pior ainda quando estes ouvintes ainda são crianças. sim, vcs são crianças. por pouco tempo, talvez, mas ainda são.

acho que eu fiz a coisa certa. contei coisas que não teria contado pra qualquer um, e, pra ser sincera, isso me ajudou com os meus problemas também. hoje em dia está mais fácil. não fácil, mas mais fácil.

então eu acho que sou eu que devo agradecer a vcs. por me ajudar com um problema que é sério e que vcs, mais novos, menos experientes e bem mais bobinhos, lidaram muito melhor do que eu. obrigada tb por merecerem a minha confiança e saberem manter entre nós o que aconteceu naquele dia.
obrigada por me fazerem aprender muita coisa quando quem tinha que estar ensinando era eu. por me lembrar que a gente sempre pode extrair sabedoria das pessoas, não importa a idade ou qualquer outra coisa.
e simplesmente por terem me escutado. isso é a coisa mais importante do mundo, e se eu puder ensinar alguma coisa pra vcs é isso: aprendam a ouvir. é das outras pessoas que vcs vão tirar tudo o que realmente importa, independente do caminho que vcs sigam.

eu amo vcs. de verdade, e sem precisar de provas.
pq eu sei que vcs sabem.

ideia fixa

eu acho que o meu shuffle tá quebrado.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

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Asfalto. Asfalto. Asfalto. Faixa branca. Asfalto.

Olho pro lado. Preto, branco, preto, branco, areia, mar. Mar, mar, mar, mar, mar.

Aquela pedalada o fazia sentir vazio. Sentia como se, a cada volta dos pedais, seu corpo e sua mente deixassem de ser para simplesmente estar. Passava a fazer parte do mundo, simplesmente, mais um elemento naquela paisagem imutável. Não era mais um ser separado, independente, pensante. Era simplesmente as voltas daqueles pedais, na beira do mar. Era o mar, e a areia.

Aquela pedalada o permitia esquecer. Prevenia-o de pensar em tudo que não era paisagem, no que era mutável e inconstante, e portanto, não era confiável. Prevenia-o de pensar nela, e na sua volubilidade, na sua impressionante capacidade de mudar de ideia sem o menor remorso, com um desapego tão puro e simples que chegava a ser grandioso. Como ela podia simplesmente sair de sua vida e agir como se nada nunca tivesse acontecido entre os dois? Ele cantava aquela velha música, que seu pai costumava botar pra tocar: “How can you look at me as if I was just another one of your deals?” Ah, Julieta!

Não! A bicicleta era para isso! Ele a havia comprado para poder se entregar ao vazio. Ele não pensaria nela. Nem no seu sorriso, nem nos seus olhos verdes. Ele só pensaria no mar. No mar e na areia.

Lá longe, no fundo da praia, um homem caminha.

“You and me, babe, how about it?”