Asfalto. Asfalto. Asfalto. Faixa branca. Asfalto.
Olho pro lado. Preto, branco, preto, branco, areia, mar. Mar, mar, mar, mar, mar.
Aquela pedalada o fazia sentir vazio. Sentia como se, a cada volta dos pedais, seu corpo e sua mente deixassem de ser para simplesmente estar. Passava a fazer parte do mundo, simplesmente, mais um elemento naquela paisagem imutável. Não era mais um ser separado, independente, pensante. Era simplesmente as voltas daqueles pedais, na beira do mar. Era o mar, e a areia.
Aquela pedalada o permitia esquecer. Prevenia-o de pensar em tudo que não era paisagem, no que era mutável e inconstante, e portanto, não era confiável. Prevenia-o de pensar nela, e na sua volubilidade, na sua impressionante capacidade de mudar de ideia sem o menor remorso, com um desapego tão puro e simples que chegava a ser grandioso. Como ela podia simplesmente sair de sua vida e agir como se nada nunca tivesse acontecido entre os dois? Ele cantava aquela velha música, que seu pai costumava botar pra tocar: “How can you look at me as if I was just another one of your deals?” Ah, Julieta!
Não! A bicicleta era para isso! Ele a havia comprado para poder se entregar ao vazio. Ele não pensaria nela. Nem no seu sorriso, nem nos seus olhos verdes. Ele só pensaria no mar. No mar e na areia.
Lá longe, no fundo da praia, um homem caminha.
“You and me, babe, how about it?”