sábado, 8 de janeiro de 2011

casa de bonecas

barbies sempre foram seu brinquedo predileto.

ela adorava aquela sensação de onipotência que ela só alcançava num mundo todo construído por ela, onde todos só faziam o que ela queria.
ela adorava construir esses mundos, para depois destruí-los na hora de dormir e construir um novo no dia seguinte.
construir e destruir. e o mais importante: só ela tinha esse poder quando se tratava das suas bonecas.

ali, naquele pequeno universo onde todos os móveis são cor-de-rosa, ninguém podia fazer nada contra a vontade daquela menina. alguém só ia embora se ela deixasse.
diferente do "mundo de verdade" (isso era o que a mãe dela dizia. pra ela, "de verdade" era aquilo que ela podia controlar.), onde as pessoas podiam simplesmente partir, sem dar nenhuma explicação e sem perguntar a opinião dela.
ali, aquela mocinha tão novinha, podia ter certeza que não ia errar. aquele era o mundo dela, com as regras dela. se ela errasse, suas barbies iam continuar a amá-la, e nem iam notar o seu erro. de novo, diferente do mundo real, onde ela tinha certeza que o que tinha acontecido era sua culpa. ela só queria entender o que ela fez de errado.

e o mais importante era poder guardar aquelas pessoas que ela criava e descriava numa caixa, de onde ela sabia que elas não iam sair sem ela saber. nenhuma surpresa, nada inesperado. tudo sob controle, conforme o que ela havia planejado.

ela era feliz nesse mundo.

um dia, a mãe dela resolveu que ela já estava crescida e deu todas as suas barbies pros pobres.
a partir daí, a menina nunca mais teve controle de nada. e aprendeu que era assim que tinha que ser.